Sim, Virgínia,Papai Noel existe

Em 1897, uma menina de oito anos escreveu ao jornal The Sun, em Nova York, com uma pergunta simples e profunda: “Papai Noel existe?”. A resposta, publicada como editorial pelo jornalista Francis Pharcellus Church, atravessou gerações e se tornou um dos textos mais importantes da história do jornalismo mundial. Não por falar de um personagem natalino, mas por afirmar algo essencial: nem tudo o que é real pode ser visto, medido ou explicado. Mais de um século depois, essa reflexão permanece atual – especialmente quando olhamos para a infância e a adolescência em nossos dias.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 1 em cada 7 crianças e adolescentes no mundo apresenta algum transtorno mental, incluindo ansiedade, depressão, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno opositor desafiador (TOD), além das diferentes condições do neurodesenvolvimento. No Brasil, estudos apontam um crescimento significativo dos quadros de sofrimento psíquico na infância e, sobretudo, na adolescência.

Por trás dos números, existem famílias cansadas, preocupadas e, muitas vezes, solitárias. Quando o desenvolvimento não segue o roteiro esperado – seja por uma condição neurodiversa, seja por questões emocionais e comportamentais – surgem dúvidas legítimas sobre o futuro, o aprendizado, a autonomia e o pertencimento. Em uma sociedade que valoriza desempenho, comparação e rapidez, esses percursos costumam ser invisibilizados. No entanto, o desenvolvimento humano não acontece apenas no que é observável. Ele se constrói também no campo do invisível: no vínculo, na segurança emocional, na constância, na escuta qualificada e na confiança que se estabelece ao longo do tempo. Nenhuma intervenção isolada é suficiente sem que essas bases estejam presentes.

Na Thélos, acompanhamos diariamente crianças, jovens e suas famílias que necessitam de suporte terapêutico contínuo — não apenas para lidar com diagnósticos, mas para atravessar fases difíceis, reorganizar rotinas, compreender comportamentos e sustentar processos de desenvolvimento possíveis e saudáveis. Nosso trabalho vai além das intervenções clínicas: envolve acolher as famílias, orientar, fortalecer vínculos e caminhar junto, respeitando a singularidade de cada história.
Acreditamos que a esperança não é promessa de normalidade nem de soluções rápidas. Esperança é saber que existe suporte. Que ninguém precisa enfrentar o sofrimento psíquico ou os desafios do desenvolvimento sozinho. Que há profissionais comprometidos em compreender antes de corrigir, em construir possibilidades reais e em sustentar processos ao longo do tempo.

O editorial de 1897 afirmava que Papai Noel existia da mesma forma que o amor, a generosidade e a devoção – realidades invisíveis, mas fundamentais. É nesse mesmo lugar que reconhecemos aquilo que sustenta o desenvolvimento humano mais profundo.
Há esperança quando uma criança é respeitada em seu modo de ser. Há esperança quando um jovem é visto para além de seus sintomas. Há esperança quando uma família se sente amparada, informada e acompanhada.
Neste Natal, talvez o convite seja permitir que a esperança assuma uma forma mais verdadeira: menos idealizada, mais humana. Uma esperança construída no cuidado cotidiano, na presença e no compromisso com o desenvolvimento e o bem-estar de crianças e jovens.
“Sim, Virgínia, Papai Noel existe.” Ele existe toda vez que o amor se transforma em prática, que o vínculo se mantém e que a confiança no humano é sustentada – mesmo quando o caminho é diferente.

Edição 245

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