No filme “Mulheres Perfeitas”, se faz sentir o terror ao ver o comportamento natural do ser humano ser mudado por outro artificial, através de chips implantados em seu cérebro. Mulheres cativas da tecnologia eram programadas para obedecer de modo total e servil, sem polemizar, as ordens e os caprichos dos seus maridos – “perfeitas” amantes e donas de casa. Será que a Ciência cresceu para escravizar? Há risco da Medicina se tornar prática de tecnólogos que não suportam a diferença e a diversidade do viver?
No Pós-Modernismo a individualidade não é bem-vinda, ela luta por direitos de privacidade que não agradam aos massificadores donos do poder. A teoria da Ética das Virtudes já era abordada por Aristóteles, Platão e Tomás de Aquino, na qual se destaca o princípio da Benevolência que significa “desejar o bem”, primeira virtude da Ética Médica e o mais importante no contexto da saúde; enquanto, na Bioética dos Quatro Princípios a Beneficência, que é “fazer o bem”, continua sendo o primeiro princípio da Ética Deontológica.
Para o bioeticista Edmund Pellegrino a virtude da Benevolência implica proteção do paciente na medida do possível, a partir da observação da vulnerabilidade trazida pela doença, da desigualdade da dependência e da assimetria do poder. A confiança do enfermo no médico facilita a atuação dos seus préstimos de forma sensata e voltada para bem, contribuindo para que o dano da conduta médica equivocada, que transgride o principal mandamento médico de não ser nocivo, seja evitada. A ética das virtudes é imutável em seu longo trajeto pelo caminho do tempo e nos deu no passado a experiência do saber, no presente a oportunidade de exercer e no futuro os frutos da abnegação colher.
Desejar o bem é o sentimento de afetuosidade e compaixão pelos excluídos e enfermos que nos motiva a prática de fazer o bem. Desejar e não realizar é frustrante; realizar sem desejar é simples obrigação. O significado etimológico da palavra misericórdia é “colocando o coração na miséria” de alguém, como na parábola do bom samaritano que condoeu-se ao ver o sofrimento do homem roubado e ferido, jogado à beira da estrada. Não só sentiu como logo agiu levando-o para uma hospedaria onde pudesse ser tratado.
Um bom livro sempre há de ser motivo de consulta. “Semiologia Médica”, de Vieira Romeiro, é mais velho do que meu tempo de faculdade, mas não é esquecido em sua propedêutica de bom caminho para se chegar ao diagnóstico pela inspeção, apalpação e auscultação do paciente após ouvir dele a história da doença descrita nos seus sintomas. De acordo com o raciocínio clínico, o médico solicitava, quando necessário, exames laboratoriais ou radiológicos para documentar melhor em seu raciocínio clínico o diagnostico aventado. Hoje o médico fala pouco e o paciente menos ainda. A pesquisa científica somada à Tecnologia moderna desenvolveu aparelhagens de alta resolução e laboratórios de indiscutível qualidade em seus resultados; então, porque perder tempo com a averiguação e detalhada dos sintomas e sua interpretação se o laboratório, bem como a imagem, encurtaram o caminho do diagnostico?
Os tempos modernos da Medicina virtual estão nos fazendo perder a capacidade de ver, de ouvir e de tocar o paciente. A sabedoria nos diz que quem toca a pele toca a alma. Este é hoje o ponto crucial da falta do relacionamento médico/paciente – já não estamos tocando o corpo quanto mais a alma. Transformamos a velha medicina de causa e efeito na atual de efeito sem causa. Ainda resta em alguns a satisfação de chegar, pelo raciocínio clinico, ao diagnostico encontrando a causa. Se não percebemos a individualidade de cada paciente, se perdemos a paciência para ouvir quem deseja falar, ficamos sem condição para diagnosticar a enfermidade do corpo e da alma.
A Medicina que nos dá satisfação é aquela que exercemos com a boa consciência de benevolência e de beneficência. Na sua primeira carta à Igreja de Corinto Paulo nos mostra o caminho sobremodo excelente do nosso realizar com amor. Se em meu proceder não tiver amor, nada serei para Deus.



