Grata Memória

A nossa memória não está escravizada à distância do tempo. Ela pode ser curta ou longa, podemos lembrar ou esquecer rápido o nome de alguém que acabamos de conhecer, porém, mais lento, se arrastando pelo extenso caminho do passado, colecionamos na lembrança, com alegria os momentos felizes e tentamos apagar, quase sempre sem sucesso, aqueles que nos feriram a alma.
No Salmo 103: 2, o Rei Davi apela para a nossa memória: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios”. Dizem que quando esquecemos é porque não valorizamos o que nos foi pedido ou o que nos foi dado. Quantos benefícios você recebeu de Deus, hoje, daqueles muitos que você lhe pediu? Será que Ele esqueceu algum? Deus ouve com paciência o rosário de pedidos diários que Lhe fazemos, se O temos como Pai. Jesus no Sermão do Monte, entre tantas considerações, disse que não é pelo muito falar que somos ouvidos, porque o Pai, antes mesmo de orarmos, já sabe do que necessitamos, e vai nos conceder aquilo que for para o nosso bem. Acredita Nele.

Ele faz por nós infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos porque Ele é poderoso e nos ama (Efésios 3: 20). Para um rosário de petição, também, um buquê de gratidão é oferta agradável a Deus. Jesus, muitas vezes, acusou seus seguidores de falta de fé, e, então, pediram a Ele: “Acrescenta-nos a fé”. O método mais antigo e eficiente usado por Deus era pedir a Moisés para exercitar a memória do povo judeu no deserto, lembrando os Seus grandes feitos: “Eu Sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” Deuteronômio 5: 6. Assim, o povo de Israel, deixando para trás a sua fé anêmica, continuava, com a fé robusta que lança fora o medo, sua corajosa caminhada em busca da terra de Canaã.
Salmo 91: 9-10: “Se o Senhor é o teu refugio e o Altíssimo a tua morada, nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda”. Salmo 126: 3: “Sim, grandes coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres”.

Todos os dias aquele carro estacionava diante da clínica de repouso onde se achava internada a esposa do advogado o qual lhe fazia a visita diária, pela manhã, antes de seguir para o escritório. Sua dedicação era notável, acessava o apartamento onde com dedicação acariciava suas mãos e seus cabelos e segredava em seus ouvidos frases cheias de afeto.
Um dia a enfermeira que presenciava, quase sempre, essa atitude lhe confessou: “Eu procuro entender, e admiro, a sua presença todos os dias demonstrando tanto amor por alguém, com Alzheimer, que não possui mais memória para reconhecer quem o senhor é”. Dos seus lábios ela ouviu a resposta: “Ela não sabe quem eu sou, porém, eu sei quem ela é. Ela é o meu amor”.
O passado de grata memória era a ponte que mantinha no presente, em sua mente, a inextinguível chama de amor à ela dedicada. Como aquele homem, Deus nunca deixa de nos amar e de estar, diariamente, bem perto de nós. No entanto, em nossas loucas ambições desmedidas temos, de modo intencional, longas lacunas de esquecimento de comunhão com Ele por medo que Ele possa interferir no que estamos fazendo ou pensando fazer, independentes da Sua aprovação.
Muitos cristãos nominais chegam a ter Mal de Alzheimer espiritual, não mais nenhuma memória em relação a Deus, chegando até marcar presença no templo como ato social.

O título do Livro de Lamentações vem do grego e significa “chorar em voz alta”, supõe-se ser poema de lamentação do Profeta Jeremias pela destruição de Jerusalém e do Templo pelos caldeus. O trecho 3: 21-24: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não tem fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.
A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei Nele”. Você caminha quase sem esperança? Faça como Jeremias, traga em seu coração e em sua mente a grata memória das misericórdias do Senhor que é a nossa porção diária de amor.

Edição 251

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