A quinta série dos adultos

Existe uma curiosidade interessante sobre a educação. Quase todo mundo passou pela escola. E talvez seja justamente por isso que tantas pessoas acreditam entender de educação.
Ninguém entra em um centro cirúrgico para explicar ao médico como realizar uma cirurgia. Poucos discutem com um engenheiro os cálculos de uma ponte. Raramente alguém questiona um piloto sobre os procedimentos necessários para decolar uma aeronave.
Mas a escola parece ser diferente. Talvez porque todos tenham sido alunos um dia, muitos acreditam que conhecem profundamente o funcionamento de uma sala de aula. Confundem a experiência de frequentar a escola com a competência necessária para administrá-la, ensinar nela ou tomar decisões pedagógicas. E é justamente aí que nasce um dos maiores desafios da educação contemporânea: a dificuldade de reconhecer o profissionalismo daqueles que dedicaram suas vidas a essa profissão.

Por trás de cada aula existe planejamento. Existe estudo. Existe avaliação. Existe reflexão. Existem reuniões, formações, correções, observações e uma enorme responsabilidade sobre seres humanos em desenvolvimento. Professores não entram em uma sala de aula para improvisar a vida de trinta alunos. Eles trabalham. E trabalham muito.
O curioso é que, ao mesmo tempo em que se exige profissionalismo da escola, frequentemente o comportamento dos adultos ao redor dela segue uma lógica completamente diferente.
Quando surge um problema, muitos não procuram quem pode resolvê-lo. Procuram quem pode comentá-lo. Em vez de uma conversa direta, surge um grupo de WhatsApp. Em vez de uma reunião, aparecem mensagens privadas. Em vez de um diálogo institucional, multiplicam-se opiniões, versões, interpretações e julgamentos.
A situação que poderia ser resolvida em uma conversa transforma-se em um campeonato de narrativas. E, nesse momento, acontece algo curioso: a quinta série reaparece. Aquela quinta série das panelinhas. Das fofocas. Das indiretas. Dos bilhetes passados escondidos. Da necessidade de ter razão diante da plateia.

A diferença é que agora ela tem internet. O que antes acontecia no fundo da sala acontece em grupos de mensagens. O que antes ficava entre alguns colegas agora ganha curtidas, compartilhamentos e comentários. E o mais preocupante é que muitos adultos não percebem quem paga a conta dessa exposição.Os filhos.
Enquanto os pais discutem, comentam e compartilham versões dos fatos, os alunos continuam convivendo diariamente naquele ambiente. Quando uma situação escolar é transformada em espetáculo, dificilmente ela melhora. Normalmente ela cresce. Ganha proporções maiores. Produz constrangimentos maiores. E deixa marcas maiores.

Existe uma diferença importante entre defender um filho e protegê-lo de qualquer desconforto. Existe uma diferença importante entre acompanhar a vida escolar e interferir em tudo que acontece nela. Existe uma diferença importante entre participar da educação e substituir os profissionais responsáveis por ela.
A educação de uma criança exige parceria. E parceria pressupõe respeito. Respeito pelas famílias. Respeito pelos alunos. Mas também respeito pelos profissionais. Talvez uma das maiores lições que possamos ensinar às novas gerações não esteja em um livro, em uma prova ou em uma atividade escolar. Talvez seja algo muito mais simples.
Mostrar que pessoas maduras resolvem problemas conversando com quem pode resolvê-los. Que profissionais merecem ser tratados como profissionais. E que crescer significa, entre outras coisas, deixar a quinta série para trás. Porque educar não é ensinar nossos filhos a vencer discussões. É ensiná-los a construir soluções. E isso, convenhamos, é uma lição que muitos adultos ainda precisam aprender.

Edição 251

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