Durante anos discutimos o uso do celular na escola como se estivéssemos debatendo apenas uma ferramenta. Mas não é sobre o aparelho. É sobre formação. É sobre limite. É sobre responsabilidade adulta.
O Brasil recentemente passou a discutir com mais seriedade a restrição do uso de celulares nas escolas, acompanhando um movimento que já acontece em diversos países. A França proibiu o uso de smartphones nas escolas para alunos até determinada faixa etária. A Austrália aprovou legislação que restringe o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, responsabilizando plataformas pelo controle de idade. Outros países europeus caminham na mesma direção após evidências de impactos negativos na concentração, no rendimento escolar e na saúde mental de crianças e adolescentes.
Se o mundo inteiro começa a rever a relação entre juventude e tecnologia, talvez o problema nunca tenha sido moralismo. Talvez seja maturidade.
Tecnologia para aprender ou para distrair?
É preciso dizer com clareza: usar tecnologia não é sinônimo de usar celular.
A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) inclui a cultura digital como uma das competências gerais da Educação Básica. Mas é importante lembrar: a BNCC não defende o uso indiscriminado da tecnologia. Ela propõe que o estudante desenvolva pensamento crítico, responsabilidade, ética e uso consciente das ferramentas digitais.
Ou seja, a diretriz nacional não incentiva a dependência tecnológica — incentiva a formação digital responsável.
Tecnologia educacional exige infraestrutura adequada, equipamentos apropriados, plataformas seguras, formação docente consistente e, principalmente, intencionalidade pedagógica. Pergunta incômoda: quantas escolas — públicas ou privadas — têm estrutura real para garantir que o uso da tecnologia esteja a serviço da aprendizagem e não da dispersão?
Ter Wi-Fi não é projeto pedagógico.
Distribuir tablets não é inovação.
Permitir celular irrestrito em sala não é modernidade.
Sem planejamento e acompanhamento, o celular vira concorrente do professor. E não há metodologia ativa que sobreviva a uma notificação vibrando no bolso.
Não por acaso, algumas universidades brasileiras já começam a restringir o uso de celular em aulas presenciais de graduação. Se adultos em formação superior enfrentam dificuldade para manter o foco diante da tela, por que insistimos em acreditar que crianças e adolescentes conseguirão fazer isso sozinhos?
Não se trata de demonizar a tecnologia. Ela é uma ferramenta poderosa quando bem usada. Mas ferramenta sem direção vira distração.
O limite que forma
A escola pode — e deve — estabelecer regras claras. Pode orientar, educar para o uso responsável, estruturar momentos pedagógicos com tecnologia. Mas existe uma parte que não é delegável.
Quem regula o tempo de tela em casa?
Quem acompanha o tipo de conteúdo consumido?
Quem dá o exemplo à mesa?
Não adianta defender a restrição do celular na escola e permitir horas ilimitadas nas redes sociais dentro de casa. Não adianta exigir concentração do filho enquanto os adultos vivem permanentemente conectados.
Educação digital começa pelo exemplo.
Vivemos um tempo em que impor limites virou quase um ato de coragem. Há o medo constante de frustrar, de traumatizar, de parecer autoritário. Mas limite não traumatiza. Limite organiza. Estrutura. Protege.
Crianças e adolescentes não precisam de liberdade irrestrita digital. Precisam de maturidade progressiva. E maturidade se constrói com orientação, presença e, sim, restrição quando necessário.
A BNCC fala em autonomia.
Mas autonomia não é abandono.
É construção guiada.
Chega de tampar o sol com a tela.
Enquanto discutimos inovação, estamos perdendo a convivência. Enquanto defendemos a autonomia precoce, estamos adiando a responsabilidade adulta. Enquanto relativizamos o excesso, estamos normalizando a dependência.
A tecnologia pode — e deve — estar a serviço da aprendizagem. Mas nunca substituir o olhar atento, a mediação consciente e o papel formador da família e da escola.
Educar exige presença.
Presença exige limite.
E limite exige adultos dispostos a assumir sua função.
O futuro não precisa de mais tela.
Precisa de mais presença.



