Mogi das Cruzes celebra 466 anos de história. E, para marcar essa data tão especial, a Revista Opinião escolheu um olhar singular para contar a trajetória da cidade: o do conselheiro-corregedor do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, Marco Bertaiolli, que um dia foi um menino mogiano que, aos 14 anos, sonhava em ser prefeito de Mogi das Cruzes.

Ao revisitar suas memórias, sonhos e vivências, Bertaiolli percorre ruas, bairros, transformações e personagens que ajudaram a construir a identidade mogiana. A narrativa acompanha não apenas o crescimento da cidade, mas também o amadurecimento de sua própria trajetória, sempre ligada a Mogi das Cruzes.
Esse é o olhar de quem nasceu na Maternidade Mãe Pobre e construiu sua vida pública ao lado da cidade. Passou por todos os cargos eletivos: foi vereador por duas vezes, vice-prefeito, deputado estadual, prefeito por dois mandatos, deputado federal eleito e reeleito e, hoje, ocupa o cargo de conselheiro-corregedor do TCE-SP, para o qual foi indicado pelo governador Tarcísio de Freitas e pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
As responsabilidades exercidas ao longo dessa caminhada ampliaram sua experiência administrativa e política, fortaleceram seu compromisso com Mogi das Cruzes e com o Estado de São Paulo e lhe deram uma visão ampla da gestão pública. Ainda assim, a cidade permanece como referência afetiva e pessoal. Seu relato revela um olhar amadurecido pelo tempo, pela gestão pública e pela convivência direta com as necessidades da população. Mais do que recordar o passado, ele reflete sobre os avanços de Mogi, seus desafios e o futuro que continua inspirando novas gerações.
Há também uma dimensão profundamente humana nesta entrevista. Bertaiolli fala como quem continua vivendo a cidade todos os dias. Hoje, como marido da prefeita Mara Bertaiolli, acompanha de perto o cuidado diário com Mogi das Cruzes e com as pessoas. É um olhar que une experiência pública, história de vida e afeto, traduzindo uma relação íntima, permanente e duradoura com a cidade construída ao longo de décadas.
Mesmo ocupando atualmente um dos mais importantes cargos do Tribunal de Contas paulista, percorrendo o Estado e acompanhando a realidade de centenas de municípios, Marco Bertaiolli preserva em Mogi suas raízes, sua família, suas lembranças e seu senso de pertencimento. Fala da cidade não como observador distante, mas como alguém que cresceu em suas ruas, formou sua vida aqui e continua vendo em Mogi das Cruzes parte essencial de sua própria história. Neste aniversário de 466 anos, Mogi das Cruzes é contada não apenas pelos fatos de sua história, mas pela emoção de quem acreditou em seu futuro desde menino, dedicou a vida ao serviço público e continua carregando a cidade no coração.
Revista Opinião – Faz 30 anos da sua primeira eleição para vereador, em 1996. O que mudou em Mogi das Cruzes nessas três décadas?
Marco Bertaiolli – Mudou muita coisa, quase tudo. Para se ter uma ideia, em 1996 a eleição ainda era feita com cédula de papel. Mogi tinha pouco mais de 300 mil habitantes; hoje já ultrapassa os 500 mil. O crescimento da cidade nas últimas décadas foi imenso em todas as áreas. Mogi enfrenta o desafio de crescer sem inchar, de se desenvolver mantendo a qualidade de vida e preservando aquilo que sempre marcou sua identidade: ser uma cidade acolhedora, humana e próxima das pessoas.
Revista Opinião – E como isso é possível?
Bertaiolli – É possível com uma administração séria, planejada e que não pense apenas no presente. Uma gestão que governa olhando somente para os seus quatro anos corre o risco de comprometer o futuro de uma cidade por décadas. Basta observar o que aconteceu nos últimos anos com o trânsito em Mogi. Isso é reflexo de um crescimento imobiliário desordenado, sem o planejamento necessário, e que hoje impacta várias áreas, especialmente a mobilidade urbana.
Temos um anel viário cujo planejamento começou na década de 1960 e o último grande investimento ocorreu nos anos 1980. Agora, essa gestão concluiu o trecho Nordeste, entre Cezar de Souza e Rodeio, e já garantiu recursos para a ligação entre a Mogi-Bertioga e a Mogi-Salesópolis, praticamente completando a via perimetral. Isso é pensar no futuro.
Da mesma forma, a inauguração da primeira Maternidade Municipal e Hospital da Mulher e da Criança representa um marco histórico para as mães mogianas que passaram a contar com uma unidade hospitalar de excelência, qualidade e segurança num momento tão especial da vida. Tudo isso se soma ao planejamento de uma rede de saúde estruturada, com investimentos que vão da atenção básica à urgência e emergência. Investimentos na educação, no período integral, revitalização e urbanização de bairros, cuidado com o meio ambiente e com o saneamento básico que vão transformar Mogi das Cruzes numa cidade que terá, muito em breve, 100% do esgoto coletado e tratado e deixará de ser uma poluidora do Rio Tietê.

Revista Opinião – O senhor fala com muita naturalidade sobre a administração municipal. Ao mesmo tempo, hoje ocupa um cargo no Tribunal de Contas, percorre o Estado inteiro, analisa contas de 644 municípios — exceto Mogi das Cruzes, da qual se declarou impedido por questão ética — e também do Governo do Estado. Que comparação faz entre tantas administrações?
Bertaiolli – Mogi das Cruzes tem distritos, como Jundiapeba e Braz Cubas, maiores do que muitas cidades brasileiras. Uma cidade do porte e da importância de Mogi das Cruzes precisa de planejamento, transparência, credibilidade, segurança financeira e previsibilidade jurídica. Sem isso, corre o risco de perder competitividade.
Nenhum investidor, nenhuma grande instituição, nem mesmo o Estado ou a União direcionam investimentos consistentes para uma cidade cuja administração não transmita seriedade. Em 2015, o Tribunal de Contas criou o IEG-M – Índice de Efetividade da Gestão Municipal -, hoje utilizado em todo o país para avaliar a qualidade dos gastos públicos e das políticas municipais nas áreas de saúde, educação, planejamento, gestão fiscal, meio ambiente e governança em tecnologia da informação. É uma forma eficaz de avaliar as políticas públicas dos municípios paulistas.
Revista Opinião – E como isso impacta a vida das pessoas?
Bertaiolli – Impacta em tudo. Nenhuma gestão consegue fazer tudo sozinha. É preciso construir parcerias, atrair investimentos e buscar recursos. Mogi das Cruzes é uma cidade em permanente movimento: todos os dias nascem crianças, famílias escolhem viver aqui, empresas se instalam e oportunidades surgem. Uma cidade assim precisa ser amada, cuidada e planejada continuamente. Vejo na prefeita Mara Bertaiolli exatamente o amor por Mogi aliado à força política que tem conquistado muitos investimentos para a nossa cidade. Já são mais de R$ 1 bilhão nestes apenas 19 meses de gestão.
Revista Opinião – O senhor criou um termo muito associado à cidade: “mogianidade”. O que isso significou – e ainda significa?
Bertaiolli – Mogianidade é o amor por Mogi transformado em responsabilidade. Significa que não podemos colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz enquanto houver um único mogiano enfrentando dificuldades ou sem acesso digno aos serviços públicos. Amar Mogi é trabalhar por ela todos os dias, independentemente da função que exerça. Sou um servidor público, seja qual for o cargo ou lugar onde estiver.
Hoje, no Tribunal de Contas, consigo perceber claramente como esse sentimento faz diferença entre as cidades. Onde os gestores têm compromisso verdadeiro com a população, os resultados são duradouros, perenes. Eles ultrapassam mandatos e transformam a vida das pessoas.
Revista Opinião – Ao deixar a Prefeitura, em 2016, o senhor tinha mais de 92% de aprovação. Como vê a gestão municipal atualmente? E como vê sua esposa, Mara Bertaiolli, como prefeita?
Bertaiolli – A Mara me surpreende todos os dias. Nunca duvidei da sua capacidade administrativa, da sua força de trabalho e da sua dedicação. Mas ela tem ido muito além do que eu imaginava. Em menos de dois anos, recolocou a cidade nos trilhos. São mais de 80 obras em andamento, em licitação ou em fase de projeto. É um volume impressionante para uma primeira gestão, especialmente considerando a situação financeira e administrativa que encontrou.
E digo isso não apenas como alguém que já foi prefeito, mas como quem continua vivendo Mogi diariamente, acompanhando de perto os desafios da cidade e o esforço permanente para cuidar das pessoas. Tenho muito orgulho de ser o “primeiro-damo” de Mogi das Cruzes e ver a Mara como a primeira mulher na história de 466 anos de Mogi a ocupar o cargo de prefeita.
Revista Opinião – O senhor imaginava, um dia, ver sua esposa prefeita de Mogi das Cruzes?
Bertaiolli – Sinceramente, não. Mas sempre acreditei que não somos nós que escolhemos a política; é a política que nos escolhe. A Mara foi escolhida pela sua competência, pelo trabalho realizado à frente do Fundo Social durante os oito anos em que fui prefeito, pelos 10 anos em que presidiu a Associação do Voluntariado de Mogi das Cruzes e por sua determinação em cuidar das pessoas. Só vale a pena estar na vida pública se for para melhorar a vida das pessoas e vejo todos os dias o trabalho da Mara cumprindo este propósito. Como marido, como cidadão mogiano e como alguém que conhece profundamente essa cidade, isso me traz um orgulho imenso.




