Nem tudo precisa servir para alguma coisa

Outro dia me peguei pensando em uma pergunta que fazemos demais: Para que serve isso?
É uma pergunta aparentemente inteligente. Para que serve aprender isso? Para que serve ler esse livro? Para que serve estudar esse conteúdo? Para que serve conhecer algo que provavelmente nunca usaremos profissionalmente?
Talvez tenhamos nos acostumado tanto a medir o valor das coisas pela utilidade que começamos a acreditar que tudo aquilo que não produz algum resultado concreto é perda de tempo. E isso me preocupa. Principalmente quando penso em educação. Vivemos uma época obcecada por desempenho. Queremos crianças produtivas, adolescentes preparados, jovens competitivos.Tudo precisa agregar alguma coisa ao currículo. Até o tempo livre parece precisar apresentar resultados. A criança não pode simplesmente desenhar. Precisa “desenvolver a criatividade”. Não pode simplesmente brincar. Precisa “desenvolver habilidades socioemocionais”.

Não pode simplesmente praticar um esporte. Precisa aprender disciplina, liderança e trabalho em equipe. Até brincar virou investimento.Talvez estejamos profissionalizando a infância cedo demais. E talvez, nessa corrida para preparar nossos filhos para o futuro, estejamos retirando deles algumas das coisas que justamente tornarão esse futuro digno de ser vivido. Porque nem tudo que é importante é útil. Qual é a utilidade de uma música que nos emociona? De uma conversa pela madrugada? De conhecer uma história que aconteceu há quinhentos anos? De olhar o mar? De ler um livro? De saber o nome de uma estrela? De sentar com alguém que está sofrendo, mesmo sabendo que não temos solução para oferecer? Talvez nenhuma! E ainda assim seria difícil imaginar uma vida verdadeiramente humana sem essas coisas.

Na escola, frequentemente escutamos uma pergunta conhecida: “Mas quando meu filho vai usar isso na vida?” É uma pergunta legítima. Mas talvez ela revele uma ideia perigosa sobre o que acreditamos ser a função da educação. Porque a escola não deveria ensinar apenas aquilo que um aluno vai usar. Deveria apresentar também aquilo que poderá ajudá-lo a ser. Ser alguém capaz de interpretar o mundo. De perceber beleza. De argumentar. De desconfiar de respostas fáceis. De compreender alguém diferente. De mudar de opinião. De ficar em silêncio. De fazer uma pergunta para a qual talvez não exista resposta.
Educação não é treinamento. Treinamento prepara alguém para executar uma tarefa. Educação deveria preparar alguém para habitar o mundo.E são coisas muito diferentes. Talvez por isso me incomode quando transformamos toda experiência infantil em preparação para alguma coisa que virá depois.

A Educação Infantil prepara para o Fundamental. O Fundamental prepara para o Ensino Médio. O Ensino Médio prepara para a universidade. A universidade prepara para o mercado de trabalho. E o mercado de trabalho prepara para quê? Em algum momento, precisamos chegar à vida. Não à próxima etapa. À vida!
Talvez nossos filhos não precisem apenas aprender a construir um currículo extraordinário.
Precisem construir repertório. Memórias. Amizades. Curiosidade. Sensibilidade. Precisem experimentar algumas coisas simplesmente porque são bonitas, interessantes, divertidas ou profundamente humanas. Sem certificado. Sem postagem. Sem precisar colocar no LinkedIn depois. Há conhecimentos que nos ajudam a conseguir um emprego.Outros nos ajudam a entender por que trabalhamos.

Há experiências que aumentam nossa produtividade. Outras aumentam nossa humanidade. E talvez tenhamos passado tempo demais valorizando as primeiras e esquecendo das segundas. Não estou defendendo uma educação sem propósito. Estou apenas desconfiando de uma sociedade que chama de inútil tudo aquilo cujo resultado não consegue medir imediatamente. Porque algumas das coisas mais importantes que uma escola pode deixar em uma criança talvez só apareçam muitos anos depois. Em uma decisão. Em uma conversa. Na maneira como ela trata alguém. Ou simplesmente na possibilidade de olhar para o mundo e perceber que existe muito mais nele do que aquilo que pode ser transformado em resultado.
Talvez educar seja também isso.Ensinar que existem coisas que fazemos para chegar a algum lugar. E existem outras que fazemos porque, de alguma maneira, já são o lugar onde valia a pena chegar.
Nem tudo que importa precisa servir para alguma coisa. Às vezes, basta importar.

Edição 253

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