Quando a idade deixa de ser rótulo e vira atitude.Você também é um NOLT?

Foto: Tima Miroshnichenko/Pexels

NOLT é um movimento que define pessoas 60+ com curiosidade pelo novo que a vida oferece, rejeitando os estereótipos tradicionais da velhice. Para quem está com 50, pode considerar que entrou na fase pré NOLT, iniciando a preparação da jornada da longevidade com entusiasmo. 

Quando antigos rótulos deixam de explicar o presente

Durante décadas, expressões como Terceira Idade, Melhor Idade, 60+ ou Economia Prateada tentaram organizar um grupo cada vez mais numeroso. O problema é que nenhuma delas consegue traduzir o que, de fato, acontece hoje com quem atravessa essa fase da vida. A expectativa de vida aumentou, a medicina avançou, as carreiras se tornaram menos lineares e o aprendizado deixou de ter prazo de validade. O vocabulário, no entanto, permaneceu preso a uma lógica de encerramento. Se vamos ao sentido literal da palavra “aposentadoria”, a intenção era que a pessoa se retirasse de cena e passasse aos aposentos, saindo da sala, do primeiro plano, para o merecido descanso por anos dedicados à jornada profissional.

É nesse vácuo que a expressão NOLT começa a aparecer em estudos de comportamento e relatórios de consumo a partir da década de 2010, especialmente na Europa e na Ásia, regiões que envelheceram antes e precisaram repensar modelos sociais, econômicos e culturais. O termo ganha força justamente por não definir idade, mas atitude diante da longevidade.

NOLT não ignora limitações físicas, nem idealiza corpos ou rotinas. Ele desloca o eixo da conversa, dos dados no RG para o estado de espírito. É sobre seguir em movimento – intelectual, social, esportivo, emocional ou profissional — dentro das possibilidades de cada pessoa.

Por que precisávamos de um novo nome?

Porque as pessoas precisavam se reconhecer. NOLT surge para dar abrigo simbólico a novas tribos que não cabiam mais nas classificações tradicionais. São profissionais que seguem ativos após a aposentadoria formal, pessoas que voltam a estudar, empreendem depois dos 60, mudam de cidade, iniciam práticas esportivas e reconstroem a vida afetiva ou simplesmente decidem viver com mais intenção sabendo que o tempo é finito para todos. 

O ponto central é entender que não existe um único jeito de ser NOLT. O conceito não cria hierarquias nem modelos ideais. Ele legitima trajetórias diversas, com tempos, ritmos e escolhas diferentes.

Do relatório ao feed: quando o conceito vira cultura

Como todo comportamento emergente, o movimento NOLT acelera quando encontra as redes sociais. Instagram, TikTok e YouTube se tornam vitrines globais de novas narrativas sobre envelhecer. Pessoas acima dos 50 passam a falar de moda, esportes, tecnologia, empreendedorismo, sexualidade, viagens, recomeços profissionais e separações tardias — temas antes invisibilizados.

Dados globais de plataformas e estudos de mercado indicam crescimento consistente no engajamento de conteúdos protagonizados por criadores 50+, especialmente quando a narrativa é realista, informativa e inspiradora. No Brasil, o movimento acompanha o cenário internacional: perfis maduros criam comunidades engajadas, influenciam decisões de consumo e ampliam o debate sobre envelhecimento ativo.

Ao redor do mundo, exemplos ajudam a materializar esse comportamento. No universo artístico, mulheres como Meryl Streep, Helen Mirren e Viola Davis seguem no centro das grandes produções após os 60, sem papéis reduzidos ou estereotipados. Na moda, Vera Wang e Carolina Herrera permanecem criativas e relevantes, muito além das idades tradicionalmente associadas ao mercado.

No Brasil, nomes como Fernanda Montenegro, Glória Pires, Marisa Orth e Glória Kalil ilustram uma maturidade ativa, produtiva e em constante reinvenção. No campo econômico e intelectual, figuras como Luiza Helena Trajano e Nizan Guanaes mostram que influência, estratégia e visão de longo prazo não têm prazo de validade. Essas trajetórias não são exceções isoladas, são sinais de uma mudança.

Longevidade, números e potência econômica

Os dados confirmam que NOLT não nasce de uma tendência passageira, mas de uma virada estrutural da sociedade contemporânea. Segundo o documento World Population Prospects da ONU (Organização das Nações Unidas), o mundo terá cerca de dois bilhões de pessoas com 60 anos ou mais até 2050, o equivalente a aproximadamente 22% da população global. Pela primeira vez na história, os maduros caminham para se tornar maioria relativa em diversas regiões do planeta.

Nos Estados Unidos e na União Europeia, pessoas com 50 anos ou mais já respondem por cerca de 40% a 45% do consumo total, de acordo com estudos da Brookings Institution e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Esta população é integrante da chamada longevity economy, um ecossistema que movimenta trilhões de dólares por ano, impulsionando setores como turismo, cultura, educação continuada, bem-estar, tecnologia, moradia e experiências premium.

Na Ásia, o fenômeno é ainda mais emblemático. Japão e Coreia do Sul lideram o envelhecimento populacional global com projeções do Fórum Econômico Mundial indicando que, até 2050, quase 40% da população japonesa terá mais de 65 anos. Nessas sociedades, a maturidade deixou de ser exceção para se tornar centro do planejamento econômico, urbano e cultural.

No Brasil, a mudança ocorre em velocidade acelerada. Dados do IBGE, alinhados às projeções da ONU, indicam que o país deve se tornar majoritariamente 60+ entre as décadas de 2040 e 2050, com estimativas apontando que mais de 37% da população brasileira estará nessa faixa etária em 2070. Hoje, esse grupo já concentra uma parcela relevante do patrimônio acumulado, do poder de decisão de compra e da influência social, movimentando cerca de R$1,8 trilhão por ano, segundo estudos da GS1 Brasil.

A composição demográfica também é determinante com uma predominância feminina nas faixas etárias mais altas, reflexo da maior expectativa de vida das mulheres. No Brasil, elas vivem, em média, sete anos a mais que os homens, o que amplia a presença feminina nos movimentos culturais, sociais e de consumo ligados à maturidade ativa, sem excluir a crescente participação masculina, que vem redefinindo padrões de comportamento e autocuidado.

Antes do NOLT, já existiam os NOLT

É importante destacar que sempre existiram pessoas 60+ com atitude, curiosidade, autonomia e desejo de reinvenção. Artistas, intelectuais, empreendedores, mulheres pioneiras, homens que desafiaram convenções, indivíduos que viveram fora das caixas etárias, no Brasil e no mundo. A diferença é que, no passado, essas trajetórias eram isoladas, heroicas, quase solitárias.

O que muda agora é o efeito de escala. NOLT não representa um comportamento individual, mas a convergência de múltiplas coragens acumuladas ao longo do tempo, que finalmente encontram contexto social, massa crítica e legitimidade cultural. Trata-se de uma geração — diversa, plural, inclusiva – que reúne homens, mulheres e pessoas que se reconhecem na sigla LGBTQIA+, compartilhando o mesmo impulso: viver o presente com protagonismo, sem pedir licença à idade cronológica.

NOLT, portanto, não inaugura uma atitude. O movimento organiza, nomeia e amplifica um modo de viver que existiu – agora transformado em tendência, narrativa e força social.

Novos ciclos, novas escolhas: trabalho, afeto e tempo

Uma das marcas mais evidentes do comportamento NOLT é a revisão profunda da relação com o tempo. Envelhecer não significa desacelerar automaticamente, mas redistribuir energia. Há quem escolha continuar no mercado de trabalho, agora com mais autonomia e menos rigidez. Outros optam por projetos autorais, consultorias, mentorias ou empreendimentos que misturam propósito, prazer intelectual e viabilidade econômica.

Também ganham visibilidade escolhas afetivas que antes eram silenciadas. Separações após os 60, novos relacionamentos, redefinições de papéis familiares e a decisão consciente de viver só deixam de ser tabu. O NOLT não carrega a obrigação de corresponder às expectativas externas porque sabe que tem o direito de recomeçar após uma jornada já percorrida e experiências vividas.

Esse comportamento aparece com força em centros urbanos globais, mas também fora deles. Em regiões próximas a áreas rurais, interior ou polos criativos descentralizados, cresce o número de pessoas maduras que trocam velocidade por qualidade, sem renunciar a conexão, repertório e participação social. É um envelhecer ativo que não copia modelos jovens, mas cria seus próprios códigos. 

Educação contínua como ativo estratégico

Outro traço estrutural do NOLT é o compromisso com o aprendizado contínuo. Dados internacionais mostram crescimento consistente da presença de alunos acima dos 50 em cursos livres, MBAs executivos, pós-graduações e plataformas digitais de ensino. Não se trata apenas de atualização profissional, mas de manter o cérebro em expansão, dialogando com novas ideias, tecnologias e linguagens.

Universidades, escolas de negócios e hubs de inovação já identificam esse público como estratégico: são alunos disciplinados, críticos, com repertório e capacidade de conectar teoria à prática. O lifelong learning deixa de ser discurso e passa a ser ferramenta concreta de longevidade cognitiva.

NOLT é inclusivo

Um ponto central dessa narrativa é não estigmatizar. Pessoas que convivem com doenças crônicas, que sofreram um AVC ou que enfrentam limitações físicas também podem ser NOLT. O conceito não está ancorado em performance, comparação ou vitalidade extrema. Ele se ancora na capacidade de continuar sonhando, se interessando e expandindo a sensação de pertencimento. NOLT é menos sobre fazer mais e mais sobre continuar sendo a diferença com seu entusiasmo pelas diversas formas de viver a vida! 

Criatividade como motor da longevidade

No centro dessa ideia está a criatividade – não apenas artística, mas existencial. Criatividade para reorganizar rotinas, redesenhar projetos, aceitar mudanças e explorar novos aprendizados. O NOLT reconhece a maturidade como um novo estágio da vida, repleto de possibilidades reais e não como uma fase de retração.

Ser NOLT é manter a criatividade para uma vida melhor enquanto for possível porque todos somos finitos. É acreditar que há um novo capítulo, com menos pressa e mais consciência, mas com presença plena no mundo.

QUADRO DESTAQUE 1

O que define um NOLT?
 • Mentalidade aberta ao aprendizado contínuo
 • Desejo de pertencimento e troca
 • Autonomia para redefinir escolhas
 • Vida social ativa
 • Curiosidade como valor central

QUADRO DESTAQUE 2

NOLT não é:
 • Negação do envelhecimento
 • Idealização da juventude
 • Competição geracional
 • Performance obrigatória
 • Exclusão de quem tem limitações

QUADRO DESTAQUE 3

Por que o NOLT importa para a sociedade?
 • Redefine o papel social da maturidade
 • Amplia o ciclo produtivo e criativo
 • Reduz o isolamento social
 • Estimula economias locais e globais
 • Atualiza a narrativa sobre envelhecer


Fontes: ONU — World Population Prospects; IBGE — Projeções da População Brasileira; Brookings Institution — The Longevity Economy; OCDE — Estudos de consumo por faixa etária; World Economic Fórum — Envelhecimento global e Ásia; GS1 Brasil — Consumo e economia 50+

Edição 246

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