Nos últimos dias, bastou a confirmação da volta de um grande jogador ao futebol brasileiro para que as redes sociais fossem tomadas por homenagens.
“O príncipe voltou.” “O rei está em casa.” “O salvador.” “O maior de todos.”
Enquanto lia cada uma dessas publicações, uma pergunta insistia em permanecer na minha cabeça: Por quê?
Não, este não é um artigo sobre futebol. Muito menos sobre um jogador específico.
É sobre algo muito maior. É sobre quem escolhemos colocar no lugar de herói.
Talvez um dos maiores desafios da educação contemporânea não seja ensinar matemática, português ou inglês. Talvez seja ensinar nossas crianças e adolescentes a distinguir talento de caráter, sucesso de virtude e fama de exemplo.
Ser extraordinário em alguma profissão é admirável. Mas, desde quando isso passou a ser suficiente para transformar alguém em referência para a vida?
Confundimos competência com autoridade moral.
Confundimos notoriedade com sabedoria.
Confundimos milhões de seguidores com milhões de boas escolhas.
E, sem perceber, entregamos aos nossos filhos uma lista de heróis construída muito mais pelos algoritmos do que pelos valores.
Quando perguntamos a uma criança quem ela admira, normalmente ouvimos nomes de jogadores, cantores, influenciadores ou celebridades. Quase nunca aparecem professores, cientistas, médicos, pesquisadores, enfermeiros, bombeiros ou pessoas comuns que, todos os dias, fazem a diferença na vida de alguém sem jamais se tornarem tendência nas redes sociais. Talvez porque estes trabalhem em silêncio, enquanto outros vivem sob os holofotes.
Não há problema algum em admirar um grande atleta. O problema começa quando o talento passa a ser suficiente para concedermos autoridade sobre qualquer outro aspecto da vida.
Afinal, o que faz alguém ser um herói? Ser capaz de driblar dez adversários? Marcar centenas de gols? Ter milhões de seguidores?
Ou a forma como trata as pessoas, como constrói sua família, como enfrenta as dificuldades, como usa sua influência e como decide viver quando as câmeras estão desligadas?
Pouca gente conhece a história de Sadio Mané. Um dos grandes jogadores de futebol de sua geração, mas que investiu boa parte de sua fortuna na construção de escolas, hospitais e infraestrutura para sua cidade natal no Senegal.
Poucos adolescentes conhecem Marcus Rashford, atleta que usou sua influência para pressionar o governo britânico a ampliar programas de alimentação para milhares de crianças em situação de vulnerabilidade.
No Brasil, milhões sabem quem marcou um gol em uma final de campeonato. Mas poucos sabem quem foi Zilda Arns, médica que dedicou sua vida à proteção da infância e ajudou a salvar milhões de crianças por meio da Pastoral da Criança.
Percebe o contraste?
Talvez nossa sociedade esteja produzindo muitos ídolos e poucos heróis.
Porque ídolos impressionam. Heróis inspiram.
Ídolos despertam aplausos. Heróis despertam transformação.
Ídolos fazem sucesso. Heróis fazem diferença.
O mais preocupante é que nossos filhos aprendem muito mais observando quem nós celebramos do que ouvindo os discursos que fazemos dentro de casa.
Eles percebem quem recebe nossa admiração.
Quem ocupa nossos comentários.
Quem estampa nossas camisetas.
Quem merece nossa defesa incondicional.
E aprendem, silenciosamente, que aquele é o modelo de sucesso.
Como educador, não desejo que nossos jovens deixem de admirar grandes atletas, artistas ou profissionais brilhantes. Pelo contrário. A excelência merece reconhecimento.
Mas gostaria que eles aprendessem a fazer uma pergunta antes de transformar qualquer pessoa em referência:
Além do talento, quais valores essa pessoa representa?
Porque uma sociedade não revela seus valores apenas pelo que ensina às suas crianças.
Ela os revela, principalmente, por quem escolhe aplaudir.
Talvez esteja na hora de perguntarmos menos quem é o melhor jogador do mundo e mais quem são as pessoas que realmente gostaríamos que nossos filhos se tornassem.
Porque driblar adversários pode transformar alguém em ídolo.
Mas apenas o caráter, os valores e a forma como se vive transformam alguém em herói



