#Seis da manhã. Não ‘Six Seven’

Confesso que tenho olhado para a geração de adolescentes de hoje com uma preocupação que vai muito além das brincadeiras da internet. Não é apenas a falta de motivação que me inquieta. É a falta de propósito. De engajamento. De criatividade. E, principalmente, a ausência de um sentido maior para aquilo que fazem. Porque, no fim das contas, é disso que nasce o futuro. Uma geração que se apega a gírias e jargões sem sentido, que viralizam da noite para o dia, como se “Six Seven” significasse alguma coisa, mas que rapidamente ocupam todos os espaços na tentativa de “farmar aura”. E eu me pergunto: que aura é essa?

Se “farmar aura” significa chegar mais perto do êxito, do reconhecimento ou de algo extraordinário, qual é exatamente a régua que está sendo usada para medir sucesso? Em que momento o mundo mudou tanto que deixamos de medir conquistas pela capacidade de construir algo relevante para nós mesmos e para a sociedade?
Talvez a pergunta mais importante não seja por que essas expressões existem. Gírias sempre existiram. Cada geração criou as suas. Me lembro do “massa”, do “balada”, do “top”, do “cringe”, do “lacrou”… Amanhã surgirão outras. Isso faz parte da linguagem, da identidade e até do senso de pertencimento dos jovens.

O problema nunca foi a gíria. O problema começa quando a linguagem revela uma maneira de pensar.
Quando “tankar” passa a significar suportar qualquer dificuldade, mas poucos conseguem, de fato, suportar uma frustração. Quando alguém diz “GG” para encerrar uma conversa, mas desiste da vida real na primeira derrota. Quando a preocupação deixa de ser aprender e passa a ser parecer. Quando o objetivo deixa de ser construir uma trajetória e passa a ser construir uma imagem. Quando a validação vale mais do que a realização.

A impressão que tenho é que estamos criando uma geração especialista em parecer interessante, mas cada vez menos interessada em ser interessante. E há uma diferença enorme entre essas duas coisas. Enquanto alguns querem “farmar aura”, a vida continua premiando quem acorda às seis da manhã. Quem trabalha oito, dez ou doze horas quando necessário. Quem estuda quando ninguém está olhando. Quem faz o básico bem feito por tempo suficiente até se tornar extraordinário.

Não existe algoritmo que substitua disciplina. Não existe trend que substitua competência. Não existe viralização que substitua caráter. É curioso perceber que muitos adolescentes conhecem dezenas de memes da semana, mas têm dificuldade para responder perguntas simples como:
– “O que você quer construir para sua vida?”
– “Que problema do mundo você gostaria de ajudar a resolver?”
– “Qual habilidade você está desenvolvendo hoje que fará diferença daqui a dez anos?”

Talvez porque ninguém tenha mostrado que sucesso não é um estado emocional. É consequência. É fruto. É construção. Vivemos uma época em que tudo precisa acontecer rápido. Vídeos de quinze segundos. Respostas instantâneas. Reconhecimento imediato.
Mas as coisas que realmente importam continuam obedecendo ao relógio antigo. Leva tempo para formar um bom médico. Leva tempo para formar um bom professor. Leva tempo para formar um grande empresário. Leva tempo para construir uma família. Leva tempo para desenvolver caráter. Leva tempo para fazer algo que deixe o mundo um pouco melhor do que o encontramos. Não se “farma” isso. Constrói-se! E talvez seja exatamente esse o desafio da educação no século XXI, se não até do próximo!

Não apenas ensinar conteúdos.Mas ajudar nossos jovens a descobrir propósito. A entender que sucesso não é o quanto as pessoas olham para você, mas o quanto aquilo que você faz continua fazendo diferença quando ninguém mais está olhando. Porque, sinceramente, daqui a alguns anos ninguém vai se lembrar de qual era a gíria da moda em 2026, mas todos sentirão os efeitos da geração que estamos formando hoje. E isso, sim, deveria preocupar muito mais do que qualquer “Six Seven”.

Edição 250

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