Amizade

A amizade constitui um dos mais preciosos dons concedidos por Deus à humanidade. Desde o Éden, ouvimos a declaração divina de que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18), o que revela que fomos criados para a convivência e para o encontro com o outro. A filosofia reconheceu igualmente essa dimensão. Aristóteles distingue amizades pautadas pelo prazer, pela utilidade e, sobretudo, pela virtude — esta última, fundamento das relações verdadeiramente transformadoras.

A Escritura também enfatiza a amizade como proteção e amparo espiritual: “o conselho sincero do amigo é perfume e incenso” (Pv 27:9). Ademais, ela se fortalece nas adversidades (Pv 17:17) e constitui auxílio indispensável nas quedas e fragilidades humanas (Ec 4:9-12). Em outras palavras, Deus jamais pretendeu que enfrentássemos a existência isoladamente; Ele nos concede amigos como expressão de Sua providência.

Convém, todavia, reconhecer que nem toda amizade edifica. Há vínculos que, longe de promoverem crescimento, deterioram princípios e conduzem a escolhas equivocadas. A advertência neotestamentária permanece atual: “as más companhias corrompem os bons costumes” (1Co 15:33). Discernir pessoas, ambientes e valores é parte essencial de uma vida prudente e espiritualmente saudável.

Também é pertinente recordar que a verdadeira amizade nasce da virtude e do caráter, permitindo inclusive a correção fraterna. Amigos autênticos não se omitem diante das feridas do outro; antes, ajudam a curá-las, pois “o ferro afia o ferro” (Pv 27:17). Relações assim exigem honestidade, paciência e compromisso com a verdade.

Por fim, e mais relevante, a amizade fundamental é com Deus, fonte primeira de todo amor. Abraão foi chamado Seu amigo (Tg 2:23), e Cristo designou como amigos aqueles que seguem Seu caminho (Jo 15:15). Quanto mais estreita a comunhão com Deus, mais íntegros e atentos nos tornamos — e, por consequência, melhores amigos seremos.

A amizade, portanto, deve ser cuidada, discernida e celebrada. Ao cultivar vínculos virtuosos e afastar influências nocivas, experimentamos uma existência mais plena, coerente e serena diante de Deus e do próximo.

Edição 245

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