A pós-verdade e a fé reformada

O termo pós-verdade (post-truth, em inglês) foi cunhado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo e romancista sérvio-americano Steve Tesich, em artigo publicado na revista norte-americana The Nation.Conjecturando sobre os escândalos de Watergate, a Guerra do Vietnã e a Guerra do Golfo, Tesich usou a expressão lamentando a postura da sociedade norte-americana diante das mentiras governamentais: “Nós, como povo livre, decidimos livremente que queremos viver em algum tipo de mundo de pós-verdade.”Para o povo, a verdade tornara-se incômoda, e a mentira que trazia algum conforto ou alívio – seja ele de ordem nacionalista, seja psicológico – passava a ser conscientemente tolerada. Desde então, o conceito passou por transformações, evoluindo de uma atitude política para um estado da própria cultura ocidental.

Em 2016, o termo explodiu mundialmente quando o Dicionário Oxford elegeu post-truth como Palavra do Ano, atribuindo-lhe a definição hoje mais aceita: pós-verdade – “adjetivo relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Hoje, o conceito ganhou contornos tecnológicos: a comunicação global aplica algoritmos para fomentar, na internet e nas redes sociais, aquilo que o próprio usuário define como verdade – praticamente o que lhe convém ou o que seu grupo avaliza.
É precisamente nesse contexto que a fé reformada emerge como elemento libertador: diante de uma sociedade que flutua ao sabor dos sentimentos e das bolhas digitais, afirmamos que a verdade não é percepção subjetiva nem construção humana, mas algo sólido, revelado por Deus e encarnado em Cristo (João 14:6; 17:17).
Enquanto o mundo apregoa que a autoridade final reside no indivíduo, nossa fé afirma que ela reside na Palavra de Deus – pois por Ele foi soprada (2 Timóteo 3:16-17).

Enquanto a cultura proclama que a Bíblia é algo antiquado e dotado de falhas, a fé reformada afirma categoricamente que Sua Palavra é isenta de erros em seu original, em todas as questões de fé, moral, história ou doutrina (Salmo 19:7-8).
Enquanto a sociedade hodierna defende que a Bíblia é boa, mas insuficiente — carecendo de novas revelações, filosofias, ideologias e afins —, nossa fé sustenta sua plena suficiência para o nosso viver (Salmo 119:105; 2 Pedro 1:3). Por fim, cabe afirmar que, enquanto a era da pós-verdade nos convida a edificar nossa vida sobre as areias movediças dos sentimentos e da opinião pública, a fé reformada nos chama a construir nossa morada sobre a rocha inabalável da Palavra de Deus.

Edição 251

Clique na capa para ler a revista

O que deseja pesquisar?