Uma das distâncias mais profundas que experimentamos como seres humanos reside na assimetria entre o quanto relativizamos a dor do nosso próximo e o quanto potencializamos a dor que sentimos em nós mesmos.
A nossa dor sempre ressoa em nós de maneira contundente, de tal modo que, mesmo quando é ínfima perto daquela que outros experimentam, a dor alheia não nos abala – ou sequer nos afeta em alguma medida.
Parece que o racionalismo mecânico nos impele para uma lógica na qual aferimos responsabilidades e, isentos de culpa pela dor alheia, recolhemo-nos ao nosso canto, reclusos no âmbito das reações àquilo que apenas a nós se refere. Assim, o sofrimento alheio, por mais grave que seja, acaba significando, no máximo, um arranhão em nós, enquanto o nosso próprio se converte numa chaga como se fosse letal.
Deixamo-nos, então, enveredar por um caminho perigoso, como se em algum dia a agrura mais profunda não pudesse bater à nossa porta. O mundo, porém, dá voltas – e em determinado momento precisaremos, como ninguém, da empatia do outro, do amor alheio, da compreensão e do amparo de quem está ao nosso lado.
O próximo, aqui, pode ser qualquer pessoa com quem tenhamos contato, seja qual for a natureza desse vínculo.
Por vezes, agimos assim para com quem está ao nosso lado mais imediato – até para com o cônjuge, o filho, o pai, o parente -, quanto mais para com um amigo ou familiar mais distante. É certo que o consolo e o conforto plenos vêm de Deus, pois assim instrui a Sua Palavra. Mas essa mesma Escritura nos ensina a sermos altruístas – mais do que isso, amorosos de maneira incondicional – para com aquele que sofre em alguma medida.
Embora os conceitos pós-modernos e o estilo de vida predominante no mundo atual nos empurrem para uma postura egocêntrica na qual “importa sermos felizes e cuidarmos de nós mesmos, os outros que se virem, cada um por si” -, a realidade nos faz experimentar uma dimensão muito mais complexa da vida: o vínculo indissociável que temos com as pessoas, em múltiplas e variadas medidas de interdependência. A ausência de misericórdia é também uma forma de maldade: é escolher não ver, não ouvir e, sobretudo, não agir quando alguém, mesmo em silêncio, clama por socorro.
Por fim, reitero o alerta: não pense que a dor mora somente ao lado, pois um dia ela chegará até você. Aja no sentido de amparar o próximo da maneira mais abrangente possível, sem esperar contrapartida – pois isso lhe fará tanto bem, ou até mais bem, do que a ele próprio.



