Uma das ilusões de nossa época é a de que podemos controlar tudo através da tecnologia, do planejamento, do poder e do dinheiro, até que uma crise inesperada, seja a perda de um ente querido, uma doença, uma reviravolta financeira ou congêneres, acontece, e então o nosso mundo desaba.
Nesses momentos, muitas vezes experimentamos o silêncio e as falsas respostas daqueles que nos cercam.
Aqui temos um bom exemplo no qual gostaria de basear este artigo que é a história do patriarca bíblico Jó. Muita gente o conhece sob o aspecto de uma de suas características que foi a paciência, mas não a única e nem a principal. Jó experimentou uma desgraça imensa em sua vida. Perdeu tudo o que tinha: todos os filhos, a saúde e todos os seus bens. Tão importante é sua história que várias mentes brilhantes se debruçaram sobre ela para compreender melhor a essência da vida, como por exemplo, o filósofo Kierkegaard e o psiquiatra Viktor Frankl, além de muitos teólogos.
Ao lado de Jó estavam os amigos que tentaram encontrar justificativas fáceis para o seu mal, sendo que muitos nos nossos dias também caem na superficialidade dos clichês de autoajuda ou do otimismo ingênuo diante do sofrimento real.
Porém, Jó não sucumbiu diante da acusação de seus pares de que as agruras eram resultado de sua falibilidade humana, algo mecânico e automático, mas a despeito de sua dor, escolheu manter a integridade de seu caráter, e mesmo diante da ruína extrema, não renunciou à sua honestidade essencial.
Podemos asseverar que a esperança cristã não é uma fuga da realidade, mas a força para permanecer firme apesar dessa realidade. No meio de sua luta, Jó reconhece: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.” (Jó 19:25). Esta é a convicção profunda de que, no final das contas, a justiça e a verdade prevalecem, mesmo que o cenário presente seja de absoluto caos.
Quando Deus finalmente fala com Jó a partir de um turbilhão (Jó 38), Ele não explica o porquê do sofrimento, mas aponta para a imensidão do cosmos. Esta é a base da virtude conservadora da humildade diante do mistério da existência. Nossa razão humana, por mais brilhante que seja, é limitada. Há uma ordem maior nas coisas que escapam ao nosso controle imediato e aceitar isso não é fraqueza, mas, sim, o primeiro passo para a verdadeira maturidade e paz de espírito.
Por fim, Jó não recupera apenas o que perdeu; ele é transformado interiormente e passa a ver a vida com mais profundidade. Reconhece: “Antes eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem.” (Jó 42:5)
Essa transformação significa sair da superfície das teorias e das aparências para encarar a vida com profundidade e realismo. A esperança que Jó nos deixa não é a promessa de uma vida sem problemas, mas a certeza de que o sofrimento humano não é a última palavra. É possível atravessar a noite mais escura da alma e reconstruir a existência sobre bases muito mais sólidas e maduras.



