domingo, 28 novembro, 2021
Batatinha 1, 2, 3…

Acho que alguns temas são tão polêmicos que a gente constrói uma opinião muitas vezes pautada na análise (superficial) do outro ou ainda das pessoas ao nosso redor, que emitem um julgamento precipitado, fora de contexto ou ainda cheio de emoção, o que dificulta nossa capacidade de observação.
Não podia deixar de falar do “Jogo da Lula”, o famoso seriado sul-coreano da Netflix que viralizou e tomou conta das redes sociais e das telas no mundo afora. Acontece que nossa crítica, não necessariamente negativa, precisa ser um pouco mais contextualizada e, de novo, sim!, de novo, precisamos separar os objetos para a análise: a série e o uso indiscriminado da tecnologia. Foi o conteúdo ou a forma (streaming) que fez de “Batatinha 1, 2, 3…” um fenômeno?
A batalha pela sobrevivência, estudada em diversas áreas, e principalmente pela psicologia, é uma tema sempre atual, pois ativa nosso cérebro primitivo e as reações instintivas – luta ou fuga. Não é de hoje que esse tema provoca curiosidade. Em proporções diferentes, enquanto a terra acaba em “2021”, o protagonista é capaz de pilotar um helicóptero, avião e saltar distâncias enormes para salvar sua família. Outros filmes, com mais efeitos especiais e uma dose de ficção científica, trazem a ideia do herói, como em “X-men”, no qual os “mutantes”, além de salvar a humanidade, lutam diariamente para garantir a própria vida.
Em “Avatar”, os homenzinhos azuis estão preocupados em salvar Pandora das mãos dos colonizadores humanos que querem explorar um precioso mineral do planeta. A verdade é que a sobrevivência e a autopreservação permeiam situações diversas e somam-se a isso a oposição entre o bem e o mal.
Falemos agora de “Squid Game”, que a todos esses elementos somam-se pessoas em uma sociedade capitalista, falidas, que não têm mais nada a perder, e decidem participar de um jogo, em que “menos um” implica em mais alguns milhões dentro de um “cofre de porquinho”. Ora, só se mudam os “gatilhos” e desenhadores da trama, mas no fundo é só mais uma série, nada Hollywoodiana, a propósito, com personagens em busca da sobrevivência. Para o espectador ainda há o apelo emocional, pois as brincadeiras remetem à infância, aumentando a adrenalina, dilatando a pupila e causando aquele frio na barriga – as mesmas que nem brincamos mais, pois deixamos nossos filhos nas telas.
Pensando em jogos, “Jogos Vorazes” traz discussões sobre a fome, a pobreza e a opressão de uma sociedade dividida que luta pela autopreservação. “Jogos Mortais” ainda não me pareceu em nada mais leve, dada à narrativa diferente, mas que mais uma vez os protagonistas “sangravam por sua sobrevivência”. Diante de tudo isso, me questionei: foram as “brincadeiras de criança” que faziam com que os personagens fossem literalmente eliminados que provocaram tamanha repercussão?
Não! Claro que não! Foi de novo, o uso indevido, inapropriado da tecnologia. Foi a falta de supervisão das famílias. Foi a prova, mais uma vez, da nossa irresponsabilidade ao usar esses recursos no dia a dia. Nossos filhos, crianças, adolescentes estão crescendo com um mundo na palma das mãos, e não só a Netflix, mas mais um milhão e meio de aplicativos que dão acesso a um repertório inimaginável que procura curiosidades, relações e dezenas de conteúdos inapropriados.
A verdade é que antes mudava-se o canal da televisão, proíbe-se de alugar o filme ou de assistir ao DVD. Mais moderninhos, estamos nos esquecendo da vulnerabilidade que estamos vivendo, deixando de respeitar fases importantes e de construir uma sociedade melhor. Não há nada de errado com os recursos, com as possibilidades e até oportunidades, mas sim com a forma com que estão mudando a dinâmica das famílias, da escola e da vida de cada um. Afinal, é a tecnologia que serve ao homem ou o homem que serve à ela?

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Richard Debre, professor, educador, empresário, consultor, sonhador.

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