sexta-feira, 24 setembro, 2021
O que acontece quando eu faço pelo meu filho?

Quando a criança nasce e durante a sua primeiríssima infância, ela não tem noção de quem ela é, embora já possa apresentar uma personalidade muito atuante. Essa construção da identidade, do eu da criança é realizada a partir dos seus espelhos, ou seja, do Outro com as quais ela convive: pais, familiares, amigos, cuidadores, professores. Por isso, é muito importante cuidarmos para sermos bons espelhos.
A maneira como as pessoas falam da e para a criança, a maneira como essas pessoas agem com ela, e reagem a ela é o que vai definindo quem é essa criança. E vai definindo também o sistema de crenças dela, a sua maneira de ler e interpretar o mundo. E isso a acompanha por toda a vida. A criança pequena precisa experimentar o mundo para se desenvolver, precisa pegar, cheirar, colocar na boca, ver como funciona, agir sobre o mundo, experimentar e errar, sim, é elaborando o próprio erro e encontrando novas maneiras de agir que elas vão aperfeiçoando suas habilidades.
Quando eu, enquanto espelho na criança faço tudo por ela, mesmo que com o objetivo de ajudá-la ou de poupá-la de erros e sofrimentos, eu posso impedir que ela se desenvolva plenamente. Se eu trato a criança pequena como um bebê, ela pode crescer achando que é incapaz de fazer as coisas, que ela não pode se desenvolver em direção à independência e autonomia. Se eu trato a criança negligenciando as necessidades que ela tem, elas podem não entender que são dignas de amor ou que elas não podem confiar nas pessoas. Se a gente sempre critica as crianças por tudo o que elas fazem enquanto estão experimentando o mundo, elas começam deixar de fazer as coisas porque elas começam a introjetar a crença de que não podem fazer, tornando-se cada vez mais submissa e dependente das vontades alheias.
Então, preste atenção em como você está agindo frente à sua criança, ao seu desenvolvimento, ao seu comportamento. Você é o adulto da relação, então já tem aparato neurológico para compreender as reais necessidades da criança de crescer segura, feliz e independente. Seja um bom espelho.

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Luciana Garcia de Lima é psicoterapeuta cognitivo-comportamental (UMC e ITC), com formação em Terapia ABA (Gradual) especialista em Psicopedagogia (PUC-SP), Neuropsicologia e Reabilitação Neuropsicológica (HC-FM-USP) e Avaliação Psicológica (IPOG). Especializanda em Neurologia Clínica e Intensiva (Einstein). Mestre em Semiótica, Tecnologia da Informação e Educação (UBC). Doutoranda em Neurologia Infantil (HC-FM-USP). Atua em grupo de pesquisa em Neuropediatria voltado para TDAH e Autismo (HC-FM-USP) e é autora dos livros “A negação da Infância” e “Autismo: práticas e intervenções.“ (www.clinicassinapses.com.br).

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