sexta-feira, 7 maio, 2021
Pandemia e o desenvolvimento infantil

De acordo com muitas teorias clássicas do desenvolvimento infantil, o crescimento, a maturação e o desenvolvimento da criança passam por estágios, que cada pesquisador acaba nomeando de uma forma diferente. Mas, todos enfatizam que esse desenvolvimento físico do ser humano é inato e filogenético, ou seja, próprio da raça humana (ocorre da mesma forma para todos).

   O que é mais recente, entretanto, e que começou a ser desenhado por Montessori e alguns pesquisadores da sua época (década de 30/40) é a influência do ambiente nesse desenvolvimento, especialmente no desenvolvimento psíquico. A essa influência do ambiente na genética dá-se o nome de epigenética.

   Já dizia Montessori, e a neurociência comprova, que a criança desenvolve toda a parte cognitiva e emocional através da sua atuação no ambiente. E que, para isso, o ambiente deve estar preparado para recebê-la. O ambiente deve ser enriquecido, ter motivos que chamem a criança à atividade e a conduzir suas próprias experiências na busca por liberdade e autonomia.

   Quando esse ambiente não está preparado, “desviamos” a criança do curso normal do seu desenvolvimento, e as consequências podem ser desastrosas: podemos ter crianças excessivamente dependentes, letárgicas, “preguiçosas” ou crianças com problemas sérios de comportamento.

   Em uma passagem do seu livro Mente Absorvente, Montessori ressalta que “se criássemos uma criança num lugar isolado, longe do contato humano, nada mais lhe dando do que uma alimentação material, seu desenvolvimento fisiológico seria normal, mas o mental ficaria seriamente comprometido”.

   O que podemos, então, deduzir desse tempo de pandemia e isolamento social? Sabemos que as crianças, em sua maioria, estão sem a estimulação adequada. Além disso, o uso de telas se intensificou nesse período trazendo consigo todos os prejuízos ao desenvolvimento global das crianças.

   Encontramos, hoje, crianças com atrasos importantes no desenvolvimento: atraso ou ausência de fala, atraso na coordenação motora fina, crianças que não sabem brincar, que não interagem e chegam até a ter medo de outras pessoas. Sem falar que o mundinho delas ficou restrito, muitas vezes, às paredes do apartamento em que moram, sendo que elas não tiveram oportunidades de explorar o mundo para compreender como este funciona.

   Recentemente, um grupo de pediatras brasileiros (Ciência pela Escola) e a Unicef publicaram dados alarmantes: 5,5 milhões de brasileiros não tiveram nenhum acesso a atividades escolares no ano de 2020 por falta de recursos.

   Sabemos que são muitos os desafios desse período, que devemos permanecer em isolamento e com todos os cuidados de higiene e saúde recomendados. Mas é preciso olhar para as nossas crianças e estimulá-las em todos os seus aspectos. É na infância que o psiquismo é construído, é na infância que o homem é construído e que, portanto, a sociedade do futuro é construída.

Não sabe o que e como fazer? Fale com a gente!!

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Luciana Garcia de Lima é psicoterapeuta cognitivo-comportamental (UMC e ITC), com formação em Terapia ABA (Gradual) especialista em Psicopedagogia (PUC-SP), Neuropsicologia e Reabilitação Neuropsicológica (HC-FM-USP) e Avaliação Psicológica (IPOG). Especializanda em Neurologia Clínica e Intensiva (Einstein). Mestre em Semiótica, Tecnologia da Informação e Educação (UBC). Doutoranda em Neurologia Infantil (HC-FM-USP). Atua em grupo de pesquisa em Neuropediatria voltado para TDAH e Autismo (HC-FM-USP) e é autora dos livros “A negação da Infância” e “Autismo: práticas e intervenções.“ (www.clinicassinapses.com.br).

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